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quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

a história de um dia perfeito

Pela manhã o concerto era de caras impossível. Mas ás seis da tarde os dois bilhetes estavam já prometidos.

A história deste dia (ontem, quarta-feira) fez-se com várias mulheres providenciais, três sandes de leitão, duas imperiais e meia e um bonito concerto das Au Revoir Simone.
Mas vamos por partes.

A sempre presente radiofónica Isilda Sanches arrancou-nos o primeiro bilhete algures do impossível, talvez em tributo de algumas tardes e encontros por ela connosco bem passados.

A Carla da "Everything Is New" demorou 4 horas, mas encontrou-nos o segundo bilhete, surgindo na noite do Alquimista, deslumbrante e salvadora, como que saída de uma tela dos estúdios DreamWorks.
Desconfio que mais vezes deixaremos esgotar concertos para recorrermos à Carla.

As sandes de leitão da "Nova Pombalina" foram revelação e a sua cultura de cliente uma lição magistral, abrindo portas já fechadas para deliciar dois esfomeados peregrinos da noite.
Os pedacitos de iscas de leitão em molho de mostarda fecharam em apoteose aquele breve momento de encanto puro.

A Catarina Silva veio de Gaia sem bilhete e se viu o concerto fica a devê-lo a nós, as suas "almas salvadoras", imparáveis a arrancar um bilhete da "dama de Nova Iorque", uma estranha mulher do Clube de Amigos do S. Carlos, erudita por engano no Alquimista, mas ansiosa por vender dois bilhetes. E a Catarina estava sozinha. Mas o Clube estava lá e não podia a Catarina voltar a Gaia sem ver as meninas de Brooklyn, NY.

E depois as Au Revoir Simone, três mulheres - ao centro delas Annie Paradise, o rosto mais belo que nos palcos de Lisboa de há uns bons anos se viu - e uma música de absoluto requinte e máxima depuração, a simplicidade e a rítmica em doses q.b.
Um som que fez, talvez, o melhor álbum de 2007 ("The Bird of Music") e que ao vivo ainda mais faz lembrar as saudosas caixinhas de música, ou talvez canções de colégios de freiras e até as melodias infantis de tantas memórias.

O concerto - "à pinha" - das Au Revoir Simone fechou magnificamente, como tinha de ser, um dia perfeito, cheio de mulheres e sorrisos. Que mais podiam dois homens (o Zé e este porteiro) querer num só dia?

domingo, 11 de novembro de 2007

G and the Storytellers

Fique o pessoal do Clube ! a saber que, quem ontem não esteve ao fim da tarde no parque de Telheiras, perdeu uma excelente oportunidade de conhecer um projecto musical de refinado bom gosto e de passar uma boa hora de interessante experiência espiritual (cultura é sobretudo espírito, não é?).

G and the Storytellers começa por ser um nome engraçado e quase original (já houve G. Love and the Special Sauce) para uma ideia, um desígnio cultural, em que todos parece poderem sair a ganhar.
É claro que Gonçalo Abrantes, o compositor e líder vocal, é a referência central, aliás brilhante, do som mostrado. Só que o seu potencial estético precisa da força multi-instrumental que o Simão Martins e o João Francisco lhe podem trazer, assim diminuindo o risco de se tornar um puro projecto romântico, zona perigosa, pela ameaça de banalidade, que o Gonçalo quase ultrapassa quando está nas suas baladas a solo.

Se a experiência decisiva que fica é ouvir a magnífica voz do Gonçalo (é verdade que com evidentes pontos de contacto com a voz universalmente admirada, por maravilhosa, de Antony), que é uma boa revelação escutar alguns dos seus belos arranjos e a sua inegável capacidade composicional, interessa-nos também testemunhar que os dois ex-Skizz estão já num registo de outra maturidade, idealmente ambos a caminho de ainda melhor partilharem a condução criativa do projecto, trazendo-o talvez para um registo mais rítmico, mais Pop e menos crooner, para utilizar um palavrão de gíria.
Não faltam referências úteis para uma possível inspiração do som futuro. Ocorrem-me quatro: Pulp, Blur, Prefab Sprout e Dead Combo.

Mas que o som que já existe é bonito, sedutor e fortemente encorajador, lá isso é.

Fica uma constatação/sugestão ao clã Martins: este é o som óbvio para banda sonora da exposição de Constância. E porque não também um concerto no dia de lançamento?